Abordagens psicodinâmicas

O que caracteriza uma abordagem como psicodinâmica?
as abordagens psicodinâmicas consideram as forças psicológicas que agem sobre o comportamento humano, enfatizando a interação entre as motivações conscientes e subconscientes. Essa dinâmica gera a energia necessária ao funcionamento do psiquismo. O processo analítico tem o objetivo de auxiliar os pacientes a compreender os significados dos sintomas manifestos e a encontrar alternativas mais adaptadas para lidar com o sofrimento psíquico. Apresentaremos os conceitos fundamentais propostos pelos principais autores das abordagens psicodinâmicas tradicionais, todos psicanalistas de formação, e que romperam em algum momento com a proposta clássica de Freud e construíram seu próprio corpo teórico e prática clínica, mas sem se distanciar da concepção de conflito intrapsíquico e da importância da relação terapêutica e do insight para a mudança ansiada.

Freud propôs que a mente é constituída por três sistemas: o consciente (Cs), o pré-consciente (Pcs) e o inconsciente (Ics).
Os sistemas consciente e pré-consciente interagem em todos os momentos, pois aquilo que é consciente num determinado momento, quando a atenção é desviada, passa ao sistema pré-consciente, cujas informações armazenadas, apenas com um esforço para lembrar, passa ao sistema consciente. Já o sistema inconsciente não permite que as informações sejam lembradas; há uma energia barrando-as. Esta é a Teoria Topográfica. O sistema inconsciente designa a parte mais arcaica do aparelho psíquico. Por herança genética, existem pulsões, acrescidas das respectivas energias e “protofantasias”, como Freud denominava as possíveis “fantasias primitivas, primárias ou originais”. Não é possível abordar diretamente o Inconsciente; nós o conhecemos somente por suas formações: atos falhos, sonhos, chistes e sintomas. Freud procurou uma explicação para a forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular. Na primeira tópica recorre à imagem do iceberg, em que o consciente corresponde à parte visível, e o inconsciente corresponde à parte não visível, ou seja, a parte submersa do iceberg.

Fases do desenvolvimento psicossexual

 Para Freud, os primeiros anos de vida são decisivos para a formação da personalidade. Cada estágio, durante os primeiros cinco anos, é definido em termos dos modos de reação de uma zona específica do corpo. Todas as crianças progridem através dos quatro diferentes estágios de desenvolvimento, além do período de latência. O progresso através dos estágios é impulsionado pela manutenção biológica, que força o indivíduo a enfrentar as demandas inerentes a cada estágio. Em cada estágio, se os pais forem excessivamente restritivos ou indulgentes, a criança pode desenvolver fixações ou complexos associados a um estágio. A fixação e o complexo são conflitos inconscientes não resolvidos. Na teoria freudiana, os estágios tradicionais do desenvolvimento psicossexual são:

Oral: Período – do nascimento a 1 ano aproximadamente. A região do corpo que proporciona maior prazer a criança é a boca. A zona secundária desta fase é o sistema digestivo. É pela boca que a criança entra em contato com o mundo; é por esta razão que a criança pequena tende a levar tudo o que pega à boca. O principal objeto de desejo nesta fase é o seio da mãe, que, além de alimentá-la, proporciona satisfação ao bebê. É a fase de reconhecimento do externo. Cores primárias e vibrantes despertam a atenção das crianças nessa fase. Envolve a fantasia de incorporação pela ingestão de alimentos; a boca é a zona erotizada. 1ª Etapa da Fase Oral – sucção; a incorporação é mais ativa, energia psíquica libidinal; 2ª Etapa da Fase Oral – canibal; inicia-se com a eclosão dos dentes, energia psíquica agressiva.

Fase Anal: Período – 2 a 4 anos aproximadamente. Neste período, a criança passa a adquirir o controle dos esfíncteres e a zona de maior satisfação é a região do ânus. A criança descobre que pode controlar as fezes que saem de seu interior, oferecendo-as à mãe ora como um presente, ora como algo agressivo. É nesta etapa que a criança começa a ter noção de higiene. Ela começa a ter noção de posse e quer pegar os objetos, tocá-los e ver que aquilo faz parte de algo fora do limite do seu corpo. Envolve as sensações obtidas por meio do controle dos esfíncteres do corpo. É marcada pelo ensaio para autonomia (estão mais desafiadores) e é a fase narcísica, do autoerotismo. As etapas (expulsiva e retentiva) da Fase Anal acontecem concomitantemente.

Fase Fálica: Período – de 4 a 6 anos aproximadamente. Nesta etapa do desenvolvimento, a atenção da criança volta-se para a região genital e ela apresenta um forte comportamento narcisista, de representação de si, criando uma grandiosa imagem de si mesma. Inicialmente a criança não imagina que existam diferenças anatômicas e acredita que homens e mulheres têm anatomias semelhantes. Ao serem defrontadas com as diferenças anatômicas entre os sexos, elas criam as chamadas “teorias sexuais infantis”, imaginando que as meninas não têm pênis porque este órgão lhe foi arrancado (complexo de castração). As meninas veem-se incompletas (por causa da ausência do pênis). Neste período, surge o complexo de Édipo, quando o menino passa a apresentar uma atração pela mãe e a se rivalizar com o pai; quando se trata de menina, ocorre o inverso. Ocorre a busca pelos objetos, e o fim da fase narcísica. É marcada pelos questionamentos (fase dos porquês). A criança entende que há objetos exteriores a ela; Fantasia da Cena Primária (pai e mãe em coito); dá-se o complexo de Édipo (relação triangular); angústia de castração; ocorre a reestruturação do ego e emerge o superego.

→ Fase de Latência: Período – de 6 a 11 anos aproximadamente. Este período tem por característica principal um deslocamento da libido da sexualidade para atividades socialmente aceitas, ou seja, a criança passa a gastar sua energia em atividades sociais e escolares. É o investimento no outro, em coisas do exterior. Os impulsos e a catexia são reprimidos; ocorre a sublimação para áreas de aprendizagem e formação intelectual.

→ Fase Genital: Período – a partir de 11 anos. Neste período, que tem início com a adolescência, há uma retomada dos impulsos sexuais, o adolescente passa a buscar, em pessoas fora de seu grupo familiar, um objeto de amor. A adolescência é um período de mudanças no qual o jovem tem que elaborar a perda da identidade infantil e dos pais, da infância, para que, gradativamente, possa assumir uma identidade adulta. Ele procura se diferenciar do outro, ao mesmo tempo em que se esforça para integrar-se a um grupo com estilos e gostos próprios. Ocorre a busca de uma identificação extraparental.

Mecanismos De Defesa

Os mecanismos de defesa são os diversos tipos de processos psíquicos, cuja finalidade consiste em afastar um evento gerador de angústia da percepção consciente.

 Os mecanismos de defesa são funções do Ego e, por definição, inconscientes. Os mecanismos de defesa podem ser considerados eficazes, quando conseguem eliminar o fato rejeitado; ou ineficazes, quando nunca o eliminam, perpetuando assim as ações defensivas do individuo. Se a defesa foi eficaz, raramente haverá uma neurose de muita importância a ser tratada.

Repressão – É a operação psíquica que pretende impedir que pensamentos dolorosos ou perigosos cheguem à consciência. Busca fazer desaparecer da consciência impulsos ameaçadores, sentimentos, desejos, ou seja, ideias desagradáveis ou inoportunas. É o principal mecanismo de defesa, do qual se derivam os demais. Um acontecimento que, por algum motivo, envergonha uma pessoa pode ser completamente esquecido e se tornar não evocável.

Negação – É a tentativa de não aceitar na consciência algum fato que perturba o Ego. Os adultos têm a tendência de fantasiar que certos acontecimentos não são, de fato, do jeito que são, ou que na verdade nunca aconteceram. Este voo de fantasia pode tomar várias formas, algumas das quais parecem absurdas ao observador objetivo. A notável capacidade de lembrar-se incorretamente de fatos é a forma de negação encontrada com maior frequência na prática psicoterápica. O paciente recorda-se de um acontecimento de forma vivida; mais tarde, pode lembrar-se do incidente de maneira diferente e, de súbito, dar-se conta de que a primeira versão era uma construção defensiva.

Projeção – O ato de atribuir a outra pessoa, animal ou objeto as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em si próprio, é denominado projeção. Manifesta-se quando o Ego não aceita reconhecer um impulso inaceitável do Id e o atribui a outra pessoa. É um mecanismo de defesa através do qual os aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados de dentro deste para o meio externo. Quando nos sentimos maus, ou quando um evento doloroso é de nossa responsabilidade, tendemos a projetá-lo no mundo externo, o qual, a nosso ver, assumirá as características daquilo que não podemos ver em nós. A ameaça é tratada como se fosse uma força externa. A pessoa que projeta pode, então, lidar com sentimentos reais, mas sem admitir ou estar consciente do fato de que a ideia ou comportamento temido é dela mesma. O extremo do funcionamento por mecanismos projetivos é a paranoia, pois a pessoa passa a ver todo mundo como perseguidor.

Formação Reativa – Caracteriza-se por uma atitude ou um hábito psicológico com sentido oposto ao desejo recalcado. Esse mecanismo substitui comportamentos e sentimentos que são diretamente opostos ao desejo real. Trata-se de uma inversão clara e, em geral, inconsciente do verdadeiro desejo. Como outros mecanismos de defesa, as formações reativas são desenvolvidas, em primeiro lugar, na infância. As crianças, assim como incontáveis adultos, tornam-se conscientes da excitação sexual que não pode ser satisfeita, evocam consequentemente forças psíquicas opostas, a fim de suprimirem efetivamente este desprazer. Para essa supressão, elas costumam construir barreiras mentais contrárias ao verdadeiro sentimento sexual, como, por exemplo, a repugnância, a vergonha e a moralidade. Na formação reativa, não só a ideia original é reprimida, mas qualquer vergonha ou autorreprovação que poderia surgir, ao admitir tais pensamentos em si próprios, também são excluídas da consciência. Infelizmente, os efeitos colaterais da Formação Reativa podem prejudicar os relacionamentos sociais. As principais características reveladoras de Formação Reativa são seu excesso, sua rigidez e sua extravagância. O impulso, sendo negado, tem que ser cada vez mais ocultado.

Deslocamento – É o processo psíquico através do qual o todo é representado por uma parte ou vice-versa. Também pode ser uma ideia representada por outra, que, emocionalmente, esteja associada a ela. Esse mecanismo não tem qualquer compromisso com a lógica. É muito corrente nos sonhos, onde uma coisa representa outra. Também se manifesta na Transferência, fazendo com que o indivíduo apresente sentimentos em relação a uma pessoa que, na verdade, lhe representa outra do seu passado. A importância, o interesse, a intensidade de uma representação são suscetíveis de se destacar dela, para passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa. Esse fenômeno, particularmente visível na análise do sonho, encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente.

A teoria psicanalítica do deslocamento apela para a hipótese econômica de uma energia de investimento, suscetível de se desligar das representações e de deslizar por caminhos associativos. O “livre” deslocamento desta energia é uma das principais características do modo como o processo primário rege o funcionamento do sistema inconsciente.

Racionalização – É uma forma de substituir por boas razões uma determinada conduta que exija explicações, de um modo geral, da parte de quem a adota. É um processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma ideia, um sentimento, etc., cujos motivos verdadeiros não são percebidos. Fala-se mais especialmente da racionalização de um sintoma, de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada. Como exemplo, citaremos as racionalizações de sintomas, neuróticos ou perversos (comportamento homossexual masculino explicado pela superioridade intelectual e estética do homem) ou compulsões defensivas (ritual alimentar explicado por preocupações de higiene). A racionalização é um mecanismo típico do neurótico obsessivo.

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