Memória

A alteração de memória estaria relacionada a uma desregulação do eixo hipotálamohipófise-adrenal, levando a efeitos adversos de hormônios do estresse sobre o hipocampo15,24,3133. Considerando-se as diversas fases do processo de memorização, seguem os principais achados de alterações encontrados na literatura consultada.

Memória de curto prazo. Pacientes deprimidos queixam-se de baixa concentração e de dificuldade de memorizar, padrão este diferente dos pacientes que apresentam alterações primárias do processo de fixação da memória. Porém, a maioria dos estudos não demonstra alteração da memória de curto prazo em deprimidos44-47, embora Purcel et al.40 tenham observado falha do aprendizado associativo em idosos deprimidos.

Memória de longo prazo. A maioria dos estudos encontra evidências de comprometimento da evocação e reconhecimento tanto de material verbal quanto não-verbal.

Memória episódica. Sweeney et al.15 descrevem alterações de memória episódica durante as fases mistas ou maníacas e também nas depressões uni- ou bipolares.

Memória semântica. McKena48 refere que pacientes deprimidos com psicose parecem apresentar um comprometimento específico na evocação de informações organizadas por seus significados em categorias semânticas, sendo esta uma ponte entre a disfunção e a sintomatologia clínica, referindo-se às falsas crenças (delírios ou idéias deliróides).

Memória implícita. Os pacientes deprimidos não revelaram alteração específica nesta função.

Evocação. É descrito que pacientes deprimidos teriam maior seletividade na evocação de material negativo49-50. Williams et al.51 sugerem que o processamento cognitivo ocorreria em dois tempos: um pré-atentivo (que segue a captura atentiva da informação e é refletido em testes de memória implícita) e outro elaborativo (que envolve a associação de informações-alvo com outras informações na memória, refletida em testes explícitos). Se a memória implícita não é comprometida, a memória congruente com o humor será expressa em testes de memória explícita. Denny & Hunt52 mostram que pacientes deprimidos evocam mais material negativo do que positivo, o mesmo não ocorrendo em testes implícitos. Mesmo assim, na medida do grau de significância, esses achados se mantêm ainda inconclusivos.

Pacientes deprimidos apresentariam déficits na recordação em tarefas que requerem o uso espontâneo de estratégias, ao contrário do observado naquelas que direcionam o uso de estratégias ou que prescindem das mesmas, indicando que os déficits experimentados na depressão se dão na iniciativa cognitiva. Deprimidos têm prejuízo da evocação de material cujo processamento é “desgastante”, como resultado de reduzida capacidade em perfazer essas operações, mas não por uma diminuição na quantidade de material lembrado, visto em tarefas dependentes de processamentos mais automáticos53.

Memória verbal e visual. Em pacientes bipolares, é descrito o comprometimento da memória verbal mesmo em pacientes eutímicos, sendo que a memória vísuo-espacial não apresentaria alteração consistente6,40,43,54,55. Para os bipolares, o tempo de estado em crise (mania ou depressão) parece se correlacionar negativamente com o desempenho da memória verbal e com o funcionamento executivo. Esses achados sugerem a presença de dificuldades neurocognitivas persistentes em pacientes com transtorno bipolar de longa data e a existência de um agregado de efeitos negativos diretamente relacionados à duração da doença bipolar sobre a memória verbal e sobre o sistema executivo.

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